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terça-feira, 5 de agosto de 2008

Cassiopeia

A Cassiopeia é uma constelação de origem muito antiga, remontava aos gregos clássicos (tendo sido classificada e incluída por Ptolomeu no seu catálogo), sendo hoje uma das 88 constelações em que está organizada a abóbada celeste.


Cassiopeia. (Fonte: Wikimedia)


A lenda da Cassiopeia é a de uma rainha cuja beleza não lhe diminuía a arrogância tendo afirmado ser mais bela que todas as ninfas do Oceano. Estas, zangadas por tamanha ousadia vinda da parte de uma mortal, foram queixar-se a Poseídon que enviou um monstro marinho (a Baleia - também uma constelação) para as costas do reino de Cefeu (o rei) e de Cassiopeia. Para apaziguar o monstro marinho, Cefeu consultou o oráculo de Delfos e este informou-o de que a única forma de impedir a destruição generalizada seria o sacrifício da sua própria filha, Andrómeda, ao monstro marinho. Andrómeda foi, então, acorrentada a uma rocha perto do mar como forma de sacrifício ao monstro, porém foi salva por um jovem herói, Perseu. Foi com este jovem que acabou por se casar. Todas estas figuras mitológicas foram 'colocadas' ou visionadas nos céus pelos gregos antigos e Cassiopeia figura como uma rainha sentada no seu trono a contemplar a sua beleza através de um espelho. O mais caricato é que todas estas constelações (Cassiopeia, Cefeu, Andrómeda e Perseu) partilham áreas contíguas no céu, somente a Baleia ocupa uma posição mais austral.

De facto, a constelação da Cassiopeia é uma constelação circumpolar norte, o que significa, em termos práticos, que para a maioria dos observadores das latitudes médias do hemisfério norte, que as suas estrelas nunca se põem abaixo do horizonte. Assim, a rotação da Terra durante uma noite cria a sensação de que as mesmas circundam o pólo celeste norte. A constelação do Cefeu também é considerada uma circumpolar norte, mas Andrómeda e Perseu (principalmente esta primeira) são associadas às constelações de Outono, exactamente por atingirem o seu zénite (ponto mais alto no céu, imediatamente por cima do observador) durante esta estação.

A constelação contém duas estrelas de grande brilho na Galáxia: (ρ) Rho Cassiopeiae e V509 além de a estrela (ε) Eta Cassiopeiae, a qual é considerada um gémeo solar devido ao facto de apresentar características muito semelhantes às do sol (ver o post sobre Tau Ceti).

Eta Cassiopeiae ou η Cas é um sistema binário composto por duas estrelas: uma semelhante ao sol (tipo espectral G2) e outra estrela anã laranja localizado na nossa vizinhança galáctica: está a 19.4 anos-luz do nosso sistema solar. Eta Cassiopeiae também é habitualmente denominada de Achird e tem sido alvo de vários programas de pesquisa científica, como o SETI ou para o futuro conjunto de telescópios espaciais destinados a encontrar planetas terrestres em torno de outras estrelas. Devido à estabilidade das órbitas entre as duas componentes do sistema e às características da estrela principal é de afirmar que Achird poderá conter um planeta com características semelhantes à da Terra.
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Rho Cassiopeiae (ρ Cas / ρ Cassiopeiae) encontra-se a 11'650 anos-luz e é cerca de 550 000 vezes mais luminosa do que o sol, apresentando um diâmetro de 450 o do Sol. Trata-se de uma das estrelas mais brilhantes da Galáxia com uma magnitude absoluta de -7.5. A zona habitável do sistema solar (i.e. onde os planetas podem desenvolver condições similares às da Terra) encontrar-se-ia a 450 UA da estrela (ou seja 450x mais distante do que no nosso Sistema Solar), o que é, na falta de melhor palavra, incrível. Esta estrela é também extremamente rara uma vez que se trata de uma hipergigante amarela (actualmente apenas se conhecem 7 estrelas deste tipo). A estrela é instável pois apresenta erupções em intervalos de 50 anos, sendo que no último acontecimento (2000 - 2001) perdeu 3% da sua massa (o equivalente à massa de 10 000 Terras). Durante estes fenómenos a sua luminosidade oscila entre 4,5 e 6 (magnitude aparente) sendo sempre visível, com maior ou menor dificuldade. Esta instabilidade é sinal de um acontecimento estelar importante que pode vir a suceder: a supernova (a morte estelar).

A constelação da Cassiopeia como pode ser observada no céu nocturno. As principais estrelas encontram-se nomeadas bem como o asterismo em W que define de forma marcada a imagem da constelação. (Fonte: Autoria do blog)


A Cassiopeia também possui 2 objectos de Messier (catálogo realizado pelo astrónomo francês Messier para distinguir os objectos do céu profundo de cometas periódicos): Messier 52 e Messier 103, este último localizado a cerca de 8'000 anos-luz da Terra. Ambos tratam-se de enxames estelares abertos. Na Cassiopeia encontram-se os restos da explosão de uma estrela, uma supernova (também, neste caso, denominada de estrela de Tycho) que foi observada em todo o mundo durante o ano 1572. Esta supernova foi descrita por Tycho Brahe (importante astrónomo dinamarquês).

Enxame estelar aberto Messier 52. (Fonte: Wikimedia)

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Constelações, Asterismos e a breve História do Mundo

Durante muitos milhares de anos, as diferentes civilizações que povoaram a terra sempre procuraram criar uma representação terrestre no céu. Essa representação baseava-se na identificação de padrões, mais ou menos, simples que tinham algo relacionado com uma actividade, deus, animal ou lenda do seu quotidiano.

Segundo a International Astronomical Union, Constelação é uma área no céu e não necessariamente um Asterismo (conjunto de estrelas). Paradoxalmente, as constelações têm origem em Asterismos criados pelos primeiros Homens. Por exemplo, no contexto astronómico, a Ursa Maior é mais que as suas sete estrelas principais: são as sete estrelas principais, as restantes estrelas dentro da área celeste que corresponde à constelação e todos os corpos do céu profundo que também se encontrarem nessa mesma área (i.e. galáxias, nebulosas).

Ursa Maior é uma constelação em que existe um conjunto de estrelas facilmente identificável, i.e. Asterismo, limitada na área da abóbada celeste (linha amarela a tracejado), além das estrelas são também identificados como parte da constelação vários objectos do céu profundo como galáxias. (Fonte: Wikimedia)


Assim, qualquer pessoa pode identificar entre as estrelas, um padrão familiar - em Portugal, é frequente ouvir-se chamar, no meio rural, às sete principais estrelas da Ursa Maior, o carro ou o arado. O carro e o arado são Asterismos a Ursa Maior, a constelação. Por uma questão de simplificação, o cérebro humano reconhece primeiro os padrões mais simples antes de interpretar os complexos. E mesmo no quotidiano, quando nos referimos à Ursa Maior ocorrerá a muitos astrónomos a ideia das sete estrelas antes de pensarem imediatamente noutro objecto. Isto simplesmente porque se trata de uma questão de economia do pensamento e de aptidão prática na realização ou idealização de qualquer objecto. Aqui, e neste caso, a diferença é entre asterismo e constelação.

A constelação é, também, uma ideia enviesada pela nossa posição permanente na terra: as estrelas que formam uma constelação não se encontram (necessariamente) dispostas a distâncias idênticas em relação à Terra. Isto trata-se de uma questão de perspectiva. O que se passa é que as estrelas encontram-se na mesma direcção do céu com que as observamos aqui na Terra. E, de facto, se pudéssemos viajar para um sistema solar diferente do nosso veríamos que todos os asterismos encontrados iriam progressivamente desaparecendo, exactamente porque este é um conceito antropocêntrico.

Ursa Maior com as sete principais estrelas. (Fonte: Autoria do blog)

Ainda sobre as constelações e juntando um pouco de Arqueologia à Astronomia - a Arqueoastronomia - , desde 13 000 a.C. que se imaginam as constelações (pelo menos desde que existem registos históricos - como as pinturas nas cavernas dos primeiros homens). As primeiras civilizações denominaram os Asterismos e a sua diferenciação com o conceito com Constelação era inexistente. Os primeiros homens repararam na permanência do céu nocturno e na estabilidade e tranquilidade que este trazia à terra - pensaram tratar-se de representações dos seus inúmeros deuses e heróis. Assim, era preciso prestar homenagem aos mesmos e estudar as suas manifestações. Para estas civilizações, os eclipses e os cometas eram sempre um prenúncio de desgraça porque se quebrava a ordem universal do firmamento e a composição da espinha dorsal da noite. Descobriram, também, o movimento de estrelas errantes ou de 'vagabundos' - os planetas.


Pintura rupestre datada de há 15 000 anos em Lascaux, sul de França. Encontra-se representado um Touro e um asterismo à sua direita, que tem a conformação das Plêiades. Curiosamente, este touro encontra-se em relação às 'Plêiades' na mesma posição que a constelação do Touro e as Plêiades ocupam no céu. Coincidência? Ou prova de que as constelações são bem mais antigas do que o que se pensava? (Fonte: International Astronomical Union)

Mas foi na permanência da ordem das coisas, no profundo céu, que descobriram a concepção de algo superior e divino. Elaboraram os primeiros calendários solares ou lunares e descobriram a noção do tempo através dos equinócios e dos solstícios. Os pontos mais alto, mais baixo e intermédios na altura do sol do céu. Quando adoptaram uma vida sedentária, passaram a associar o nascimento de uma estrela ou o seu ocaso com as cheias fluviais (e.g. o caso da estrela Sírio no Antigo Egipto), e com o tempo das colheitas ou das sementeiras. O nome 'Astronomia' deriva mesmo desses tempos antigos - embora seja de origem grega clássica - Astéri + nómos: αστέρι + νόμος, as leis das estrelas. Na vida dos primeiros homens, dificilmente arranjar-se-ia melhor definição para o que hoje é a ciência. Num mundo pré-clássico em que a diferença entre a vida e a morte, a paz e a guerra, uma boa colheita e a fome eram ténues. A Astronomia marcava a linha da riqueza e do conhecimento entre os povos, baseados na sua capacidade de realizar previsões. A subtil diferença entre barbárie e civilização.



As Pirâmides de Gizé são o apogeu arquitectónico do Egipto. Sem os conhecimentos de Astronomia, a civilização egípcia, tal como outras civilizações pré-clássicas, nunca poderiam ter chegado ao seu nível de excelência sem dominar a previsão (com precisão) do tempo e das colheitas. Um conceito simples mas indispensável na vida dos primeiros homens sedentários, que procuravam a compreensão do meio que os envolvia - e a própria estabilidade política e da Civilização. (Fonte: Wikimedia)